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Morreu a filha do mar que voava como as gaivotas.

“Apareceu morta no rio Mondego uma mulher, com cerca de 50 anos, desconfiam que é a Maria José Costa. Aquela senhora que entrevistaste…” Perante tais palavras reagi como grande parte da turba quando perde alguém, e fiquei até hoje sem conseguir pronunciar uma única palavra acerca deste desaparecimento. Hoje, senti uma enorme vontade de escrever, talvez para a perpetuar ainda mais, talvez para deixar neste quadro uma pincelada daquela que foi a mulher que entrevistei e com a qual criei um laço forte de amizade. Porém, por mais palavras que busque, não consigo transmitir nada, não sei ao certo o que sinto, não consigo expressar-me… só me lembro da sua voz doce e meiga, do seu olhar carinhoso e da forma formidável com que lutava contra a auto mutilação. “É aqui nesta casa de banho que corto os pulsos, até já pus a foto da minha neta para ver se tenho força e não volto a cortar-me, mas nem assim”, contou-me naquela tarde em que vi que afinal os versos de Florbela Espanca poetizados em Ser ...

Visita de médico

Nove meses depois volto a visitar Santa Comba Dão: a mãe que me viu crescer, a madrasta que me virou as costas e a velha que falhou na operação plástica. Convicta de que estava esquecida, com rugas e cheia de características tão típicas de quem já viveu largos e bons anos, ousou fazer algumas transformações para ver se dava mais nas vistas e se corrigia alguns aspectos, de forma a não ficar tão beirã. Vaidosa, de trato fácil, conservadora por excelência, foi sem dúvida uma surpresa ver como este colo materno se deixou influenciar de tal modo a ficar descaracterizada. O mais espantoso de tudo é tentar perceber como alguns filhos e enteados deixaram que ela ficasse tão desproporcional e entrasse num vaidosismo exagerado. Confiou nas mãos da especialista Cármen Menosmal e aceitou ser alvo de uma intervenção cirúrgica no âmbito do tratamento Requalificar Partes Corporais Degradadas (RPCD). Com 25% do tratamento pago, numa primeira fase resolveu aumentar os dois seios, um para amamentar os...

A morte depois do prazer

As ambulâncias circulam lá fora na mesma azáfama de sempre. Álvaro Pedroso não faz caso. Continua em casa a preparar-se para sair para mais um jantar de negócios, no qual as conversas vão impor as mesmas perguntas de sempre: “Como fazer face à crise? Como estão a avançar os projectos em curso? Quando é que a administração vai aprovar a Nota Interna para podermos avançar com o raio do projecto? Por que é que se continuam a meter em campo jogadores que não têm rendimento? Por que é que até o futebol está em crise?” … Diz em voz alta enquanto dá uma vista de olhos no matutino que mal teve tempo para ler. Sete minutos depois, é despertado para a realidade com o vibrar do telemóvel, colocado sobre a cómoda. Do outro lado Jaime Rosado fala em voz ofegante e imperceptível. “Tou. O quê? Não posso crer. Tem calma. Onde tás? Jaime?! Não é possível!”, afirma nervoso Álvaro e sai disparado de casa. “Hoje, íamos ter uma noite especial” Na rua o INEM está parado no meio da estrada a impedir o trânsi...

Poémia: uma poetisa presa numa fuga à perda

Podia ser alguém com um dom inato para expressar os seus sentimentos, até porque quem lê os seus versos acredita que existe ali algo que ultrapassa a sensibilidade da maioria dos mortais, talvez por Poémia ser muito dependente das relações humanas e não saber lidar com a perda. “O mais importante é que quem lê consiga recolher todo o mel que derramo por entre estrofes mal formadas, com rimas perfumadas pelo aroma de essência de caril... Espero que percebam como, de facto, não há nada melhor para a cabeça como um café com limão, adoçado com açúcar de cana cristalina”, desabafa Poémia numa tentativa de nos fazer compreender sentimentos de poetas por si criados – Essência de Caril, Café com Limão e Cristalina. “No fundo são três almas que se fundiram numa Poémia/ Para espelharem uma mente livre/Agarrada a uma postura recatada/Numa fuga à perda”, explica. A escrever poesia desde os 12 anos, encara os seus escritos como “devaneios poéticos”, tem consciência daquilo que expressa e sabe que t...

As guilhotinas do conforto

Dona Rosinha é uma mulher cujo físico aparenta ter 70 anos. Vive feliz no meio de uma família que está a solidificar, à medida que o tempo e as necessidades são maiores. A rua é a sua casa, o Jardim Constantino é o seu porto de abrigo. Para trás estão mais de quatro décadas de sacrifícios em prol de um futuro risonho e tão seguro como as sequóias que lutam umas com as outras à procura de sol. “Não sei como vim aqui parar, mas sei como daqui vou sair”, afirma vezes sem conta enquanto olha para as pombas que a procuram como se a quisessem levar a voar pela capital portuguesa. “Vou sair daqui mais rica. Hoje, dou valor a pequenas coisas, como por exemplo à importância de um botão no casaco”, refere. De poucas palavras e bastante assertiva. Dona Rosinha, como é carinhosamente tratada pela família que a acolheu na rua, adora passar o tempo a contar estórias de vivências passadas. “Entretenho-me a fazer sonhar e a guiar os meus companheiros por sítios por onde passei, ao mesmo tempo, que rec...

Profissão: faraós dos tempos modernos

Sara Raimundo. 24 anos. Uma licenciatura em Marketing e Publicidade. Uma Pós-graduação em Relações Públicas e mais umas quantas acções de formação e workshops. A vontade é comunicar, persuadir e, claro está, ganhar dinheiro. À semelhança da maioria da população deseja ter um emprego. Os motivos são iguais aos seus, aos meus e aos nossos. Todos os dias envia o curriculum vitae para várias empresas e responde a quase todos os anúncios, mesmo fora das áreas de investimento académico. Por ironia do destino, Sara respondeu a um anúncio que precisavam de alguém que gostasse de comunicar, fosse persuasivo e dinâmico. “Não hesitei, até porque a remuneração era apelativa, para além de o meu perfil se enquadrar ao posto de trabalho em causa”, conta. Chamada para a entrevista. “Senti-me mesmo confiante que ia ficar com o lugar, achei aquilo tudo adequado a mim. Estavam várias pessoas para serem entrevistadas, mas acreditei que eu tinha potencial para aquilo. A pessoa que me entrevistou passou o ...

PAS no caminho da PAZ

Uma lição de vida retirada do silêncio de quem grita contra o nosso Amor Há pessoas que cruzam caminhos com histórias de vida tão parecidas, com feridas tão sentidas, com rostos amargurados pela perda, mas… com o espírito leve. Leve de confusões. Talvez, enrijecidos pelo nome que carregam, ou simplesmente pelas lições de vida tiradas de experiências, ora impostas à força, ora por mero capricho de falsos profetas que se aproveitam de quem é realmente puro. Pas é mais do que um estado de alma ou algo inatingível. É sem dúvida um profeta que arranjou força no exemplo de S. Paulo. Aquele Santo que amou Cristo mais do que os restantes Apóstolos. A passagem por um Grupo de Jovens fez com que este homem, que é uma espécie de profeta, que consegue fazer jus, na perfeição, à homofonia nominal, passasse por “uma das melhores e maiores experiências” de vida. Na simplicidade dos seus actos apercebeu-se do quão importante é a palavra de honra, a honestidade e a certeza de que todos os nossos gestos...