quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

“A Ponte Submersa” é “um memorial que é devido”

“Esta é a incrível história de um homem que destruiu a vida de três jovens cheias de sonhos promissores, arrastando no mesmo golpe a cidade que o viu nascer…”
In A Ponte Submersa


“A Ponte Submersa” é o mais recente trabalho de Manuel da Silva Ramos. Apresentado no auditório da Casa da Cultura de Santa Comba Dão, no passado sábado, 21, o romance é uma ficção que tem por base os malogrados acontecimentos que abalaram a cidade, no ano passado.
Apresentado por António Sousa Guedes, director da Voz do Dão, e por Fernando Paulouro Neves, director do Jornal do Fundão, o livro das Publicações Dom Quixote, segundo Luís Cunha, em representação da autarquia local, “é um momento forte na nossa terra” e, “é um memorial que é devido”.
Sousa Guedes considera a leitura do mesmo “bastante complicada, porque além de o ter vivido e, ainda viver este problema bem de perto e, como santacombadense que sou, não foi fácil a leitura”, sublinhou com um discurso pautado pela emoção.
Na sua opinião, o romance de Manuel da Silva Ramos “surpreende desde a primeira à última página. O romance é engenhoso quanto baste, para nos transmitir esta triste história que nós todos vivemos nesta cidade. É uma história contada em ficção, é uma história terrível, é uma história apimentada com descrições literárias imbuídas de liberdade de expressão, sem que o autor pretenda, de modo algum, ferir qualquer susceptibilidade, antes pelo contrário”, revela.
As personagens baseadas em pessoas reais que os santacombadenses tão bem conhecem, fazem desta obra “um belo romance” e “uma triste realidade”, acrescenta o director da Voz do Dão argumentando que Manuel da Silva Ramos, com A Ponte Submersa oferece ao leitor “um suspense cativante e que polariza todas as nossas atenções”.
A descrever os acontecimentos está “a chuva”. “Durante o livro, ela vai apresentando os acontecimentos”, desvenda Paulouro Neves enaltecendo a escrita de Manuel da Silva Ramos. “É uma escrita que eu considero muito cinematográfica”.
Do ponto de vista literário, para Paulouro Neves, o autor “agarra muito bem na história” e, entre outros aspectos, “chama a atenção para aquilo que é o suicídio da própria terra”, bem como “o egoísmo em relação às gerações futuras e à própria sobrevivência da humanidade, que é uma questão crucial do nosso tempo”.
Na obra é, ainda, apresentado “um roteiro de Santa Comba Dão”, onde o autor procura “dar à nossa cidade uma alma e uma vida, que nós estamos bem necessitados de voltar a recuperar – a paz, a harmonia e o sossego, da nossa terra Natal”, informa Sousa Guedes.
Outra questão baseia-se no papel do Estado, “a quem o António Costa serviu durante tantos anos. Ele põe na ferida a questão da formação da sua própria personalidade, por parte do Estado e, em que o Estado, segundo a opinião do autor, deverá ser co-responsável, também, no ressarcir das famílias, em termos de indemnização”. Porém, esta não é a única questão ponderada pelo autor. “É a questão do papel da Igreja em relação a este caso”, conta Sousa Guedes ressalvando que “as vítimas eram de religiões diferentes”.

As três jovens de sonhos promissores: “Uma tinha o sonho de se instalar em França; a outra, abraçar uma religião brasileira com a ânsia de ser feliz universalmente; e, a terceira andava às borboletas”
Manuel da Silva Ramos

Manuel da Silva Ramos explica que chamou ao serial killer, de Santa Comba Dão, “ Cabo Pá”, porque “era um homem de trato fácil com as pessoas, em geral, e porque a pá é um instrumento que está sempre a enterrar qualquer coisa. Neste caso, três jovens na flor da idade”.
“Hoje elas estão aqui miraculosamente ressuscitadas pelo poder da literatura, nunca mais serão esquecidas”, garantiu Silva Ramos explicando que “o papel do escritor é, de numa sociedade sem bússola, indicar o caminho, de dizer onde está o bem e o mal. Há um ano parei em Santa Comba Dão para almoçar e, na vossa cidade ouvi falar destes três crimes que viveram comigo durante 9 meses. Eu, também, nunca mais os esquecerei”.

“E, que nunca mais na vida Manuel da Silva Ramos tenha oportunidade de escrever um livro deste teor. Eu penso, que nem este nunca deveria ter sido escrito”
Sousa Guedes
Cristina Correia Pinto
in O Tabuense

segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Conny Kadia e o seu encontro com a música e cultura africana


Há dias deixámo-nos levar pela melodia dos djembés e dos doundouns e fomos parar à Quinta Mondega, na freguesia de Póvoa de Midões, no concelho de Tábua. Ali, no meio da natureza encontrámos Conny Kadia, uma mestre de djembé que nos recebeu para melhor percebermos o que leva uma alemã a apaixonar-se pela música e cultura africana e, a enraizar-se em Portugal.
Nascida na Alemanha, em 1965, Conny teve aulas de piano clássico, desde os 6 anos de idade, para além disso aprendeu órgão de igreja e, estudou na Universidade de Marburg, na Alemanha, as disciplinas de política e filosofia. Acrescenta que é autodidacta, no que concerne à música jazz, flauta transversal e saxofone.
Aos 28 anos encontrou-se com a música e cultura africana, através do djembé. “Com o acabamento dos estudos encontrei a cultura africana e, as pessoas puxaram-me para tocar djembé, não fui eu... porque foi estranho para mim também, mas as pessoas viam capacidades, nesta música. E, então ao final dos 20 anos eu comecei com isto e, lá fiz uma formação profunda com o mestre da Guiné (Mamady Keita), que viveu aqui na Europa... viajei pela Europa e, assim cheguei ao djembé”, conta.
Em Marburg, teve uma escola de djembé “La percussion”, a qual entregou a uma ex-aluna, para mudar de vida para Portugal. Aqui, dá aulas de djembé em Tábua (Quinta Mondega); na Junta de Freguesia de Tábua, onde tem construído a escola de “Música & Atelier de Artes em Tábua”, com aulas de instrumentos acústicos para crianças, jovens e adultos; Coimbra (Centro Formação Artes Jah Nasce); e, em Viseu no (IPJ).
Na Quinta Mondega, situada à beira do rio Mondego, Conny Kadia dá aulas semanais e, organiza workshops e fins-de-semana, uma vez por mês, com Open Session, na primeira sexta-feira do mês, no Bar Cultura Kapingbdi, em Tábua; também, organiza seminários internacionais de uma semana na Páscoa e no Verão, no mês de Agosto.
Quando compara os alunos portugueses com os do seu país, não tem dúvidas ao dizer que “aqui em 10 alunos tem 7 ou 8 que são mesmo muito bons e interessados. Na Alemanha, em 30 alunos tem 5 que são bons”.

Os portugueses e o djembé

Para Conny Kadia, os portugueses a tocar djembé têm “muito mais ritmo que as pessoas na alemanha”, aqui “as pessoas ainda vivem mais dentro da natureza, estão mais soltas”, defende revelando que o djembé “é um conjunto de natureza”, que resulta da combinação de uma árvore, pele de cabra e “das mãos humanas, que o tocam”, explica.
Apreciado por crianças e idosos, este é um instrumento que causa “fascinação, mas é, às vezes, um pouco brutal o djembé… ou as pessoas gostam, ou têm de fugir”, afirma Conny ensinando-nos que uma orquestra tradicional de djembé tem, em princípio, seis vozes e, que a dança é feita a solo ou em grupo.
Tradicional da África oeste, as músicas tocadas “contam a história de uma vida”, que Conny procura transmitir aos seus alunos e, a quem se cruza no seu caminho. “Eu ensino de forma a que as pessoas fiquem independentes. Quem está mesmo muito bom, passa nas minhas mãos três, quatro anos, depois faz a vida dele no djembé. Podem ficar professores. Tenho alguns alunos que hoje dão aulas”, informa orgulhosa dos seus pupilos.

“Encontrei este ninho... este pequeno paraíso, na procura de algo diferente da civilização alemã”

Em jeito de balanço, Conny Kadia declara que não esperava “ficar tão feliz. Porque às vezes é muito difícil e muito cansativo, uma visa construída de gostos e de capacidades… uma vida individual. Eu construí o meu próprio trabalho, mas fiz a mesma coisa na Alemanha. Isso é muito cansativo e muito difícil, mas também dá uma liberdade enorme. Uma pessoa está completamente livre”, sublinha elucidando-nos de que este é “um trabalho cultural, também é um trabalho de política e de filosofia. Eu vejo isto como um trabalho inteiro”.
Contente por ter feito esta decisão, “de deixar a Alemanha e estar aqui”, Conny Kadia revela que chegou ao concelho de Tábua “por causa da natureza. Quase sozinha, à procura de outras ideias, no final dos estudos”. Em relação à Quinta Mondega, faz-nos uma visita guiada à casa de campo, ao acampamento, ao rio, onde quem quiser pode nadar ou andar de canoa, mostra-nos os animais e, toda a natureza e música para umas “férias criativas”.
Nos tempos livres, gosta de usufruir da beleza da natureza – razão principal para a sua mudança de vida – e, de estudar “ansiosamente psicologia e a vida de Cavalos”. Em Setembro, deste ano, disse-nos que vai entrar numa formação sobre “Tratamento natural (sem violência) de Cavalos”, “A língua dos cavalos”, num centro de Insíno de Monty Roberst, no Alentejo.

Workshops e concertos

Na sua agenda tem marcado de 6 a 11 de Agosto, um workshop internacional, para iniciados, das 11 às 14 horas, e para médios das 15 às 18 horas, a ter lugar na Escola de Djembé & Doundoun Mondega, em Tábua.
Do seu currículo fazem parte o MC KIMBA Tama, “enjoy the rhythm”, 1996; CD KIMBA Tama, “secrets of mondega”, 1997; CD KIMBA nova, “afro-brazilian-power-percussiona”, 1999; e, CD KIMBA mondega, “one planet”, 1999. Conny Kadia é ainda autora dos livros Musophia I, Die Sprache der Trommel 1997 (“A lingua do tambor”); e, de Musophia II, Djembé pela Paz, que ainda será editado, provavelmente, este ano.
Conny Kadia participa em concertos com a Djembé Orchestra Mondega (alternativa com Dança Africana ou com animação de fogo) e com a Kimbanda (Escola de Djembé & Doundoun Mondega)
Cristina Correia Pinto
In O Tabuense