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As guilhotinas do conforto

Dona Rosinha é uma mulher cujo físico aparenta ter 70 anos. Vive feliz no meio de uma família que está a solidificar, à medida que o tempo e as necessidades são maiores. A rua é a sua casa, o Jardim Constantino é o seu porto de abrigo. Para trás estão mais de quatro décadas de sacrifícios em prol de um futuro risonho e tão seguro como as sequóias que lutam umas com as outras à procura de sol. “Não sei como vim aqui parar, mas sei como daqui vou sair”, afirma vezes sem conta enquanto olha para as pombas que a procuram como se a quisessem levar a voar pela capital portuguesa. “Vou sair daqui mais rica. Hoje, dou valor a pequenas coisas, como por exemplo à importância de um botão no casaco”, refere. De poucas palavras e bastante assertiva. Dona Rosinha, como é carinhosamente tratada pela família que a acolheu na rua, adora passar o tempo a contar estórias de vivências passadas. “Entretenho-me a fazer sonhar e a guiar os meus companheiros por sítios por onde passei, ao mesmo tempo, que rec...

Profissão: faraós dos tempos modernos

Sara Raimundo. 24 anos. Uma licenciatura em Marketing e Publicidade. Uma Pós-graduação em Relações Públicas e mais umas quantas acções de formação e workshops. A vontade é comunicar, persuadir e, claro está, ganhar dinheiro. À semelhança da maioria da população deseja ter um emprego. Os motivos são iguais aos seus, aos meus e aos nossos. Todos os dias envia o curriculum vitae para várias empresas e responde a quase todos os anúncios, mesmo fora das áreas de investimento académico. Por ironia do destino, Sara respondeu a um anúncio que precisavam de alguém que gostasse de comunicar, fosse persuasivo e dinâmico. “Não hesitei, até porque a remuneração era apelativa, para além de o meu perfil se enquadrar ao posto de trabalho em causa”, conta. Chamada para a entrevista. “Senti-me mesmo confiante que ia ficar com o lugar, achei aquilo tudo adequado a mim. Estavam várias pessoas para serem entrevistadas, mas acreditei que eu tinha potencial para aquilo. A pessoa que me entrevistou passou o ...

PAS no caminho da PAZ

Uma lição de vida retirada do silêncio de quem grita contra o nosso Amor Há pessoas que cruzam caminhos com histórias de vida tão parecidas, com feridas tão sentidas, com rostos amargurados pela perda, mas… com o espírito leve. Leve de confusões. Talvez, enrijecidos pelo nome que carregam, ou simplesmente pelas lições de vida tiradas de experiências, ora impostas à força, ora por mero capricho de falsos profetas que se aproveitam de quem é realmente puro. Pas é mais do que um estado de alma ou algo inatingível. É sem dúvida um profeta que arranjou força no exemplo de S. Paulo. Aquele Santo que amou Cristo mais do que os restantes Apóstolos. A passagem por um Grupo de Jovens fez com que este homem, que é uma espécie de profeta, que consegue fazer jus, na perfeição, à homofonia nominal, passasse por “uma das melhores e maiores experiências” de vida. Na simplicidade dos seus actos apercebeu-se do quão importante é a palavra de honra, a honestidade e a certeza de que todos os nossos gestos...

Um rewind sentido para aliviar o sentimento da dor

Uma vida simples, banal e brutalmente imortalizada por uma simples arma de combate. Uma dor sacrificada na solidão de um momento de família, igual ou parecido com tantos outros. Serafim Vitória deu-nos a chave do seu álbum de memórias e deixou que abríssemos as portas e as janelas da sua vida, com o desejo de um reencontro, de uma nova explicação para aquele dia 13 em que tudo mudou. Passada mais de uma década, sem saber precisar ao certo quando tudo aconteceu, a força das suas palavras ecoam por entre dias de azáfama e rasgam os ouvidos mais teimosos. Ao falarmos com Serafim o coração batia forte. As suas rugas traçavam-nos um homem sedutor. O olhar unia a sabedoria típica da distância de duas gerações. O sorriso fazia-nos sentir tranquilos. “Sei o que me vai acontecer”, começou por nos contar naquela noite primaveril. Olhámos espantados e interceptámos o nosso interlocutor, na esperança de este ser um desabafo tão normal vindo de pessoas que sabem como ninguém qual a melhor estação p...

No Pico do sismo em 1998

Guiada pela onda do revivalismo e pela habitual moda de trazer factos passados ao presente, ou não fosse esta uma constante da nossa essência, abro a gaveta dos escombros da minha memória e tento resgatar as vivências do sismo que em 1998 abalou as ilhas do Faial, Pico e São Jorge. Estava a noite calma, no céu as nuvens davam lugar aos cordeirinhos e, na minha mente desfilava uma película com questões alusivas à oportunidade que tinha em passar uns dias numa ilha, com alguns elementos da minha família. Era tudo como que um desfecho, um aproveitar das últimas horas as férias por terras açoreanas. Nessa noite, 8 de Julho, tinha um aperto no coração, uma ansiedade frustrada por não termos arranjado grupo para pernoitar no cimo da Ilha Montanha (denominação atribuída ao Pico) e ver a actividade diária do sol, bem como o poder que aquele ‘miradouro’, onde se ergue o Pico Pequeno ou Piquinho, a 2351 m de altitude, tem em prolongar o nosso olhar até ao horizonte. Era uma noite perfeita. O dia...

Retratos da minha peregrinação

Numa altura em que a Fé está mais acesa do que nunca, saltam-me à memória vários flashes da minha caminhada até Fátima. Surge tudo, de forma breve, como fotografias tipo passe. Reconheço que esta é a melhor forma para, hoje, aproveitar o que aprendi aos 18 anos. Ou não fosse este formato de retrato o mais utilizado para tudo o que é legalmente importante e, porque também se arrumam e transportam mais facilmente. Não é que a minha ida tenha sido um acto legal. Foi, talvez, uma aventura, um encontro, um tomar de consciência, o pagar de uma promessa, o concretizar de um sonho… não sei bem o que foi. A única certeza que tenho, hoje, é que foi útil para saber a minha resistência física e psíquica. No fundo, para perceber melhor a grandeza dos tais pormenores da vida. Confesso que sempre tive curiosidade em saber o que leva tanta gente a percorrer quilómetros com um único destino e vários propósitos. E como curiosa que sou também queria fazer o mesmo. Quando dei por mim estava de ténis, fato...

A deambular por Santa Comba Dão

Às voltas pela cidade santacombadense sou guiada pela história, conduzida pelas ruas estreitas de granito (as minhas preferidas) que não me dizem para onde me levam, porque fazem questão de me pôr onde querem. Resolvo começar pelo Largo do Balcão, um espaço amplo com alguns sinais de modernidade e, desço pela Rua Alexandre Herculano, sem dúvida que é a tal rua que me deixa com mais vontade de a calcorrear vezes sem conta, pois há sempre um pormenor diferente para reparar (quanto mais não seja no povo que na Taberna do Aníbal, mais conhecida por ‘Parlamento’, joga às cartas, bebe uns valentes copos para recordar alegrias e esquecer sabe-se lá o quê… um local típico que até já tem letreiro a dizer ‘Há café’). As pedras da calçada teimam em prender a minha marcha, e os saltos das senhoras, quase de propósito, em frente ao Parlamento para tentar perceber (não o por quê de os homens não deixarem de mandar um piropo ou de estarem ali com conversas ‘frutíferas’ sem acção para combater o vício...